segunda-feira, 22 de maio de 2017

Conversas do transporte irregular

                                                              (Foto: Eliz Pessoa)

Acordei atrasada, peguei o micro-ônibus até a BR. De lá, como não costumo e não gosto de fazer, entrei em lotação clandestina num veículo qualquer. Então, Band News FM, fone no ouvido tentando prestar atenção ao noticiário a respeito dos últimos acontecimentos da política sórdida brasileira, quando o motorista, um senhor educado, começa a conversar com a carona da frente, dizendo:

- Lá via a rabecão! Com certeza já mataram outro em Sobradinho II esta noite. Tem defunto na área. Também é nisso que dá mexer com droga, andar com quem não presta. Mexeu, morreu. Andou, morreu. Mas também, os pais não conversam mais com os filhos hoje, não observam com quem  andam, ficam mais no celular, essas coisas todas.

A carona por sua vez, destila a sua opinião, enquanto nós três mulheres do banco de traz, observamos em silêncio. Aí a sujeita carona vira e diz:

- Pois é. O senhor chegou a ver a propaganda da Natura do dia dos namorados? Depois assista! Acredita que lá eles colocaram duas mulheres se beijando? Pode? Ok, ok, cada um faz o que quiser da própria vida, mas colocar na TV duas mulheres de beijando como se isso fosse algo normal, é demais! Imagina a explicação que a gente vai dá pros nossos filhos.

O senhorzinho vira e diz:
- Esse mundo está muito estranho mesmo... Porque não colocaram um casal “normal”? Outro dia mesmo eu fui numa festa que tinha homem beijando a boca de homem. Fiquei na minha, achei estranho, me catei e saí fora. Não tem nada haver comigo aquilo ali! Poxa, eu não tenho problemas com “essa gente”, acho que cada um faz o que quiser da própria vida, mas ficar beijando por aí na boca é demais.

E sujeita carona retruca.
- Também acho! Deixa pra fazer isso de beijar na boca, entre quatro paredes.
O motorista senhorzinho diz:

- Tenho uma amiga que é “sapata”, mas ela mesmo já, que não gosta de ficar beijando nas ruas. Ela está certa neste ponto.


Observo que ele parece querer a opinião de nós três mulheres sentadas no banco de trás. Mas não deixamos escapar nenhum um tipo de comentário, embora, pelo o menos a minha cabeça estivesse doida pra dizer que o penso sobre o assunto, retrucando palavra por palavra, mas a preguiça em expor para aquele tipo de mentalidade a minha opinião foi mais forte que o meu desejo de consciência. Pensei: mas gente, se o filho do cara perguntar o que são àquelas duas mulheres beijando na boca, é só responder que são duas mulheres beijando na boca. Simples, sem dar muitas voltas atrás do próprio rabo. Mas de fato, pra algumas pessoas, o mundo deveria ser assim, igualzinho a elas. 

elizpessoa

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Ressaca, 17 de abril de 2016

                                                        (Foto Fonte: Redes Sociais)


Amanheci de ressaca, com o coração apertado.
Eu votei nas últimas eleições, acreditando que o meu voto faria a diferença. Votei acreditando na legitimidade do voto. De lá pra cá o país dividiu-se ao meio, de um lado a direta do outro a esquerda. No meio do caminho, um golpe foi instalado em meio a nossa Democracia ainda jovial. E de repente, tentaram anular o meu voto, tentaram tirar de mim a minha escolha, de todos que a fizeram comigo. 

A corrupção é algo tão enraizado na nossa cultura, que modificá-la exige tempo, trabalho e coragem. Coragem pra enfrentar os ratos do poder, para puni-los com severidade, com justiça e imparcialidade. Mas o problema da corrupção é que ela atende a interesses de poderosos de vários setores, inclusive a senhora Justiça que também pode atender a tais interesses. O Moro jogou uma suposta bomba em meio ao Estado Democrático de Direito, falou em nome da lei, usou de métodos arbitrários, tentou agir como o Super Homem dos quadros modernos, agradou a muitos, dentre estes, pessoas que não suportaram o resultado da última eleição presidencial, pessoas que não suportam o acesso das periferias às faculdades através de bolsas sociais, que não suportam a idéia do Estado assistir aos menos favorecidos, das madames que não suportam as empregadas trabalhando com dignidade, com CTPS, com direito as férias, FGTS e rescisão pagas com dignidade. Que não suportam essas mesmas empregadas com acesso a graduação por meio das mesmas bolsas, que não aceitam a idéia de dividir o pão recolhido em impostos para o bem maior, a realização do sonho da casa própria para aqueles que jamais poderiam ter acesso a ela. Não suportam as cotas para os negros, não suporta ouvir a voz das favelas que sempre foram deixadas a marginalidade, que não aceitam as diferenças como parte da Democracia. 

Ontem, o que vimos foi um cenário de delírio. Homens engravatados falando em nome desse povo exposto acima, falando em nome de suas mulheres, mães, pais e filhas. Falando em nome de seu estado, em nome da moral e dos bons costumes, esses praticamente não praticados por eles. Falaram em nome do conchavo combinado em seus partidos, unidos agora em nome do impeachment da Presidente Dilma Rousseff. Estes mesmos homens que nunca suportaram a ideia de uma mulher no maior cargo de poder de uma nação. Porque em suas cabeças o machismo é o imperialismo praticado diariamente contra todos nós, todos os dias. Este imperialismo que nem a Lei Maria da Penha encontrou forças pra enfrentar.

Não sou a favor da corrupção seja ela qual for, assim como não sou a favor do envolvimento do Partido dos Trabalhadores nos escândalos atuais. Mas também não sou hipócrita, nem cega para não enxergar o teatro realizado ontem em Brasília. Para não enxergar a banalidade com que cospem na nossa cara diariamente. Um exemplo o Sr. Eduardo Cunha, presidindo a cena de ontem e tantos outros políticos que tem seu nome envolvido em escândalos e processo de tudo quanto e tipo e criminalidade. 

Ontem foi o dia do SIM ao impeachment da Presidenta, ontem também foi o dia da alegria de alguns, mas não foi a batalha para um Brasil melhor, enquanto não nos enxergarmos como cidadãos de ações arbitrárias também. Enquanto ainda continuarmos agindo com espertezas diárias, enquanto continuarmos furando fila, passando a perna no outro, “se dando de bem” em cima de alguém. Enquanto não nos aprofundarmos em nossas ações cotidianas arbitrárias ao próximo, enquanto não entendermos que a corrupção não se faz somente no alto escalão do poder, mas nas ruas e vielas de muitas cidades daqui.

Brasil mostra a sua cara...

elizpessoa

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Proibido Jogar Entulho

                                                 (Grafite de Daniel Melim)


A rua, o abandono, o escuro, o excesso de luz, a miséria, o outro.
A rua, o cão, o homem, a pedra e as necessidades.
A rua, a arte, o silêncio, o berro.

A rua, tantas dignidades assoladas por ela.
A rua, a falta d’água, a ausência do teto, a pele e o edredom, a desesperança.
A rua, o medo, a cólera, a dúvida, a morte, a vida.
A rua, o álcool, as drogas, a dor e um corpo queimado – o mendigo, um índio e o negro.

A rua, as mulheres grávidas, a opressão, o presente tão futuro.
A rua, o sexo, a pele, o cheiro, os outros.
A rua, os pobres, o desemprego, o afeto.
A rua, a memória de um homem, uma mulher, um menino.
A rua, o passado tão presente.


A rua e uma felicidade esquisita...

elizpessoa

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

emoção substantivo feminino 1. ato de deslocar, movimentar. 2. agitação de sentimentos; abalo afetivo ou moral; turbação, comoção.

Sou um bicho emotivo por natureza, não só por sentir emoção, mas porque a sinto muito, sinto sempre. É fácil me sentir marejando os olhos, apertando o coração. Se brincar, grande parte dos dias experimento essas sensações, e pra falar a real não me agrado muito com esse jeito de perceber as coisas. Já fui pior é claro! Mas fui me melhorando com o tempo, para não derreter à toa. Todo santo dia ao ver um vira lata perto da minha casa, o qual tem certa amizade, fico com nó na garganta, nó de vê-lo passando sol e chuva debaixo do mesmo lugar. É claro que poderia assumi-lo! Mas como perdi há seis meses minha cachorrinha, resolvi racionalmente a não assumir outro enquanto não tiver condição de fazê-lo sem peso.

Falando de outro momento, me emocionei na festa surpresa de um amigo. É como seu eu pudesse sentir o carinho de todas aquelas pessoas por uma pessoa especial à todas. É foda! Sento por ver as pessoas indo embora, sinto por perceber os espaços que ficam, sinto por perceber aquelas que ainda não foram, mas estão perto de irem.

Outro dia, no ônibus, sentei-me ao lado de uma moça que sempre desce no mesmo local que eu, e como a gente conversa, não foi diferente naquele dia. Mas o fato é que a moça tinha acabado de receber a notícia de que perdera uma grande amiga há poucas horas dali. Fiquei sem saber o que dizer, ouvi mais que qualquer coisa, depois, vendo-a com os olhos marejados, emocionei-me ao ponto de quase não conseguir segurar a minha lágrima.

Por tudo isso, parei de ver notícias ruins, jornais e afins, para também parar de sentir tudo que vejo, porque neste caso, a emoção não vibra bem.  

Hoje, em especial, senti pela morte de David Bowie. Não que eu fosse a fã do cara, aquela que conhece a carreira do sujeito na íntegra, mas senti simplesmente por me lembrar da forte figura retratada nesse Camaleão do Rock, e ver que tudo é efêmero por aqui. E nos últimos tempos figuras importantes desencarnaram do nosso plano, cumpriram o tempo que lhes fora dado, figuras raras e repletas de brilho, deixaram esse esfera terrena mais vazia.

To tentando melhorar, me anestesiar um pouco, para ficar menos emocionada, menos coração mole demais para uma realidade dura demais para amolecer com tudo.

eliz pessoa


segunda-feira, 16 de março de 2015

Domingo, 15 de março de 2015 – Brasil


Um sentimento confuso pairou sobre nossos ares democratizados, fazendo com que parte da população saísse às ruas, vestidos em verde e amarelo, protestando contra a corrupção e pedindo o impeachement da Presidente Dilma Rousseff.  Acordamos com a televisão noticiando em intervalos curtíssimos de tempo, o movimento de quem aderiu à campanha contra o Governo PT, mobilizada por dois fortes motivos, sendo o primeiro, a não aceitação por parte de quem não votou no PT e ainda tiveram que “admitir” sua reeleição, e o segundo plano, por conta dos escândalos envolvendo a Petrobrás e demais partidos políticos veiculados aos roubos milionários.

Neste dia não somei meu grito a grande massa verde e amarelo típica de Copa do Mundo, porque nada me faz acreditar que não há manipulações envolvendo todo esse esquema, inclusive de países fortes do outro ponto mais acima da América. Para quem foi se manifestar não havia indícios de golpe de Estado, e de fato os tempos são outros, muito menos aleatórios, mas ainda assim repletos de manipulações e novos ferramentas tecnológicas e midiáticas.

O Brasil se dividiu nas eleições de 2014, mas grande parte dele ainda optou por eleger a Presidenta Petista, os nordestinos foram massacrados, como já era de costume, xingados de miseráveis, analfabetos, dependentes de bolsas, preguiçosos, incapazes de trabalhar e outras mazelas. Claramente que história desse povo mostra até aqui o contrário. O país encontrou um limiar perigoso entre brancos x negros, ricos x pobres, gente que vive no centro das grandes metrópoles, versos periferias de todo Brasil, e isso só se deram porque, de certa forma, com ou sem escândalos sobre roubos os pobres tiveram acesso no Governo PT a bolsas, tão comuns e utilitárias lá fora, dando acesso as faculdades através projetos sociais, aquisição da casa própria, nas carteiras assinadas por empregadas, as cotas para negros e outros cocitas.
Claramente que o Governo Lula foi corajoso para implantar tais projetos, pois o momento econômico e político brasileiro favoreceram sua ação imediata. Muita gente torceu o nariz pra tais mudanças, muita gente que jamais saberá o que “é não ter, e ter que ter pra dá”. Não menos importante a inteligente e ousadia de um Fernando Henrique Cardoso também colaborou para esse momento Brasil-Lula. Esses pontos, a meu ver, são de suma importância para a construção do momento que, em especial as pessoas de menos acesso viveram nesses últimos tempos de Brasil. Admiro a figura do Lula pela a capacidade de ampliar esse horizonte para aquela população largada nas periferias brasileiras, mas os tempos são outros e a sociedade clama por mudanças, isso também é um fato. Esse é o processo das coisas.

A Presidente eleita, e até acredito que nenhum outro teria a dureza necessária para enfrentar esse ano de crise, vive um momento severo neste ano regido por marte, senhor das guerras e das ebulições.
Muito se acredita e a oposição existe e se faz necessária em qualquer democracia pra isso, que se outro candidato houvesse ganhado as eleições, as coisas seriam diferentes. Particularmente, acredito que a bomba desse momento em que vivemos estouraria nas mãos de qualquer outro, com ou sem boas intenções de governo.

Em meio caos as pessoas dividem-se em dois grupos, contra e a favor do governo, se agridem, se consomem num ódio extremado de opiniões, assumimos a guerra como algo pessoal, alguns se põem como mais entendidos quanto a História do Brasil, outros se manifestam como sábios oradores, outros observam atentamente a cada discutido alheio que dê margem a um contra posição mais precisa. O Brasil fica assim, lá e cá, a corrupção continuar forte, venenosa, cancerígena e sistemática, assola pequenos e grandes brasileiros, segue assídua no Senado, na Câmara, aliás, ambientes mais que propícios a sua edificação. Seguiremos sem Reformas, continuaremos a espreita de próximos golpes sem face, alguns temendo amedrontados com a possível volta do comunismo, no medo branco de virarmos um Cuba dilacerado, cheios de Petróleo, vigiados pelo capital estrangeiro.

Assistiremos a muitos outros embates e tentaremos cotidianamente nos policiarmos contra a corrupção... Àquela corrupção nossa de cada dia, disfarçada de espertezas inocentes e não menos covardes.

Para alguns o impeachment é o caminho, mas a corrupção continuará aí, aqui, na esquina espreitando nossas ações intermitentes.


elizpessoa

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O Deus de cada um


(Imagem: Google)


Cada um tem lá o Deus que concebe, eu, por exemplo, o concebo em meio a natureza, num simples passarinho, já para outros ele é amor, onisciência, onipresença e onipotência. Pra uma parcela significativa da humanidade ele está nas religiões, nos ritos escolhidos para reverenciá-lo, nos templos ou nas imagens sacro-santas da Renascença e de tantos outros períodos não menos significantes da arte e até no alto da montanha de um famoso Dedo de Deus. Tem gente que o vê tal qual sua imagem e semelhança, como um homem vivendo num templo além daqui. Deus Pai de Jesus filho. Outros acreditam que ele está sempre sentado num trono esperando o momento para julgar vivos e mortos. Tem gente que pensa que ele é inimigo número um do mal, o grande Juiz das sentenças que o homem deixou de cumprir.

Difícil é conceber a ideia de Deus em uma só coisa. Multifacetado, presente em tudo que se vê e escondido no que se sente.

Pra mim esse Deus não cabe na ideia limitada das coisas, não cabe na poltrona, no céu cheio de nuvens brancas, porque ele vai além da minha própria realidade. Empresta-se ao cheiro das coisas, ao atrevimento da vida, no passar desenfreado do tempo enclausurado num relógio de uma parede. Se doa nos animais, nas mães, nas crianças, na fúria da natureza, no prato, na alma, na dúvida, nos outros, em nós. Vive sempre espreitando vazios e questionando certezas. Presente em cada um, nos laços das amizades, no leito das famílias, na prece desesperada, no nó na garganta, no cuidado e no descuido das coisas.

O Deus de cada um cabe tanto num lamento, como num lampejo de alegria.
Esse Deus que sabe a arte de fazer-se inteiro, ainda que desfragmentado.


eliz pessoa




quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Pela terceira vez, Manu pediu pra ver o Papai Noel no shooping. A mãe a levou.
Manu é daquelas crianças da geração Z ou cristal de inteligência apurada.

Ao ver o Papai Noel Manu abre os braços, corre para os braços dele, senta-se no colo dele toda feliz e diz:

- Papai Noel! Eu voltei pra te ver!!
Papai Noel pergunta pra ela:

- Qual é o seu nome?

Manu, no alto dos seus poucos anos de infância, olha para mãe com aquela expressão um tanto quanto indignada, como quem não acredita que o bom velhinho tenha feito essa pergunta a ela, vira os olhos para a direita e esquerda, pra cima e pra baixa e responde cruzando os braços com impaciência:

- M a n u.

A menina já havia visitado o bom velhinho duas vezes só neste ano e levado o vasta listinha de presentes contemplada com alguns brinquedos e uma graviola. Isso mesmo: G-R-A-V-I-O-L-A, desejo repetido em outros Natais.

Papai Noel vira pra Manú e diz:

- Qual é o seu desejo pra presente neste Natal minha querida?

Manu perplexa, não acredita de novo que ele, além de esquecer o seu nome, também não lembrava mais da listinha que ela levara nas outras duas visitas deste ano. Respira fundo como quem tenta recuperar o fôlego e repete a lista, inclusive a graviola.

Quando a visita termina, ela pega na mão da mãe, sai pelo shopping refletindo e diz:

- Mamãe? Coitadinho do Papai Noel, tão velhinho que não lembra mais das coisas, nem do meu nome, nem da listinha... tadinho dele.

elizpessoa