quinta-feira, 3 de abril de 2014

Garis



                                                                      (Foto/fonte: Google Imagens)



Varria a rua como se estivesse num estado de transe, lixo por lixo. Daqui, observava-o no exercício de seu trabalho e imaginava seus pensamentos. Tinha uma espécie de certeza de que divagava na repetição das pessoas em jogar o lixo no chão ainda quando havia uma lixeira ao lado. É claro que a minha “espécie de certeza” só existia na minha também espécie de cabeça. Após juntar todo o lixo, pegou umas folhas amassada de jornal velho e começo a ler alguma notícia com um dia de atraso.

A rotina que cercava sua vida não era menos diferente de grande parte da população brasileira. Varria as ruas como quem varre a alma de alguma coisa há muito impregnada. Às vezes executava sua missão no automático, como uma máquina contratada para servir. Tinha um coração cheio de escapes, uma firmeza na pele herdada pela cor de sua raça. Mas andava desanimado, ainda que por instantes.

Acostumara-se às ruas, a sujeira deixada pelas pessoas pontualmente. Aprendera em seu ofício, que lugar de lixo era no lixo, pensava sempre na quantidade de resíduos que produzíamos todos os dias. Achava que um dia não haveria mais local onde jogar tanta bagaceira. Entendera que as pessoas eram as maiores colaboradoras para a continuação de seu trabalho, o que de certa forma era bom, porque sempre haveria emprego pra ele. Mas ele não queria passar a vida fazendo aquele serviço sujo, tentava encontrar outras funções onde se enquadrasse. Apoiava a greve dos garis do Rio de Janeiro, porque sentia na pele aquela verdade.

Era de poucas palavras e muito cansaço, e entendia que a existências do fardo em sua vida era suficiente para lhe roubar a fala, esconder a língua, pois embora novo, não sobrava muita energia ao final do dia. Não entendia como funcionavam aquelas mulheres tagarelas que seguem no ônibus da volta pras casas das periferias às oito da noite falando horrores, contando a vida e difamado os outros. Cansava-se de novo só de imaginar... Era alguém muitas vezes invisível a sociedade, o que de certa forma era até conveniente, assim conseguia passar observando tudo atentamente.

Seu nome era ninguém, o lixeiro ninguém, um homem ninguém, alguém acostumado ao silêncio escondido nas grandes cidades. Adaptado as curvas das ruas e calçadas, anônimo, calado e completamente perdido neste mundo cheio atalhos e alguns desencontros.

Sua escola, o lixo.
Sua missão resgatá-los.
Seu sonho, outra realidade.
Seu nome de certidão Ezequiel, nascido de uma Maria qualquer.

Filho de Deus.




elizpessoa