terça-feira, 20 de novembro de 2012

A árvore



                                                                            (Foto: Eliz Pessoa)


O telefone tocou. Do outro lado, ela, um tanto quanto diferente do habitual, ergue a voz dizendo que uma cena de guerra instalara-se na W3 Norte. Um tanto sem acreditar na imposição de sua voz, ainda mais porque ela não é de agir assim, muito pelo contrário, sempre usa de equilíbrio e ausência de exageros para dizer algo, e por essa mesma razão foi que a levei a sério, porque ela é dada a seriedades.

Não satisfeita, me convidou para descer e ver de perto o caos. Não pude negar seu pedido e nem anular minha curiosidade. Saímos a pé, cabelos ouriçados pela natureza, calças desbotadas, óculos na cara para enxergar melhor o problema, que até então, só fora lembrado pelo vento forte na janela, pelo peso da água sobre a morada, pelas cores escuras do céu, pelo o dia que virara noite tão repentinamente e pelo estrondo de um único e sincero raio que caíra sobre alguma parte da cidade, bem perto dali.

Teria sido o raio que arrancara as árvores da avenida, ou, o vento e toda a sua intensidade resolvera mostrar provas de suas habilidades de vento?

Quando lá chegamos, ela havia sido arrancada pela raiz, levando consigo uma vida inteira de árvore, que leva um tempo para amadurecer completamente. Talvez por essa mesma razão, ela tenha se dobrado aos artifícios do vento, deixando-se render por inteira.

O fato é que venho confessar minha simpatia pelas árvores. Aprecio a generosidade delas e sempre as vi com bons olhos. Não é à toa que a revolta das árvores que se passa na história do Senhor dos Anéis tanto me agrada. Mas na vida prática, elas não podem arrancarem-se do chão e seguirem proclamando independência, pois acostumaram-se a fincar raízes, nem tão profundas assim, como no caso das que residem na W3. Nasceram sobre o elemento terra e sempre exigiram praticidade e firmeza para enfrentarem anos erguidas, lutando contra a lei da gravidade.

Ela caída fechando a avenida, os carros desviando sobre as calçadas e o formigueiro de curiosos saindo dos buracos, como ratos atrás de queijo.

Nós humanos, sempre afoitos por alguma novidade, saímos às ruas. Alguns se sentiram jornalistas do caso da árvore vencida pelas ironias do vento forte daquela chuva repentina e começaram a filmar com celular e a relatarem o caso. Outros aproveitavam para postar nas redes sociais o acontecido. Um flamenguista fez questão de posicionar-se próximo a raiz apontando para ela, enquanto outro sujeito sacava uma foto, fazendo do caos uma grande distração momentânea como quase tudo por aqui.

Logo a imprensa chegou e a notícia se espalhou junto aos curiosos.  Transformando aquela tarde de sábado numa grande atração, sem artistas, nem palco. Apenas um morto, a árvore. Somente ela, no singular em meio a tantos contra tempos.


elizpessoa

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