terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Aos pais com carinho


                                                                 (Imagem: Google) 



Os pais geralmente querem o melhor para os filhos, desejam ao menos que estes consigam ir além de onde eles pararam, quando não almejam que faça diferente, trilhem novos caminhos dando passos mais seguros. A experiência de vida lhes deu o olhar atento ao tempo desperdiçado e ao modo como o desperdiçamos. Isso tudo é natural dentro dessa relação enorme de troca e aprendizado. O problema é que os filhos têm suas próprias experiências, repetidas ou inovadas, mas únicas e que, somente com o passar da vida é que faremos nossas próprias considerações a esse respeito.

Olhando para trás, percebo que, particularmente, o que me foi mais imposto verbalmente foi: estude para ser alguém, para não ficar na mão dos outros, para ter autonomia financeira, etc e tal. Hoje entendo o que tentavam dizer, mas a ordem me soava como imposição e não como lição de quem já havia vivenciado um pouco mais da vida. Acredito que mais por necessidade, aprendi na prática um pouco dos motivos desse discurso inflamado de vida, trabalhando dos dezessete anos até hoje sem pausa e maiores intervalos, pagando contas, assumindo responsabilidade que a vida me impôs à força e mais cedo do que eu pensara. Então, posso dizer que pouco do que almejaram pra mim aconteceu, me considerando independente dentro de meu pequeno espaço de interdependência que a sociedade cria entre as pessoas. Ninguém é tão independente como pinta, eu diria. Ando com as próprias pernas há tempos, mas voltando aos desejos maternais do início deste, quando se tem vinte anos de vida cabe tanta juventude dentro da gente que a sensação que se tem é que não vai dar tempo de usufruir tanto fôlego guardado no peito, como se tudo fosse pra hoje, como se não houvesse amanhãs. Muitas vezes há. Temos a cabeça voltada pro agora, pra urgência da hora, pra emoção do momento, onde nada é mais importante de que existir plenamente no ato. De fato é assim! Dos vinte aos trinta, diria que é o momento das plantações necessárias: estudo, estudo, estudo, trabalho, transformações, impulsos, viagens, experiências que abram a cabeça precisam ser vivenciadas para a posteridade. Abrir a cabeça para enxergar longe, vislumbrar paisagens e experimentar.

É claro que nem todos nós podemos viver essas conquistas da fase que eu chamaria dourada de nossas vidas, porque a realidade pintada é diferente para cada indivíduo.

Embora muitos digam que a vida começa aos quarenta, eu diria que a vida começa no parto, bem óbvio assim! Mas o abrir-se para a vida, com a cabeça já tentando pensar por si mesma, o que não é fácil, começa aos vinte anos. Temos aí dez anos de abertura para o mundo, pois embora sempre seja tempo de recomeçar, nem sempre se recomeça com o mesmo tempo que se tinha, até porque a vida após os trinta é mais exigente consigo mesma e nos transfere isso com: cobranças, penalidades, questionamentos diários de nossas escolhas e passos, pois sabe que não temos tanto tempo para errarmos como antes.

Quanto aos nossos pais, eles quase sempre levam a razão, mas pecam quando não dão o exemplo, pois aprendemos, enxergamos, projetamos e transferimos no exemplo, este é um senhor poderoso que torna muitos discursos vazio por falta de praticidade. Eles não são culpados, ninguém o é. Mas se um dia eu tiver um filho, e esse se me dá certo arrepio, arrisco dizer que, tentarei expor o valor de todo o tempo da vida dele, em especial, o valor dos vinte aos anos trinta, quando a juventude ainda tem muita gana de respirar o instante como se esse fosse o último. Lembrando também que ele terá o direito de escolher o seu caminho, assim como eu tive o meu. E caberá respeitá-lo com um indivíduo que pensa por si mesmo, por mais difícil que seja essa transição. Faz parte.



elizpessoa  

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